A Comilança (La Grande Bouffe, dir. Marco Ferreri)
O que foi mais chocante para mim em A Comilança não foi a orgia. Muito menos os problemas escatológicos. Estes aspectos foram muito divertidos, até. O que é mesmo incômodo, para não dizer insuportável, é a reunião desse grupo de amigos bem sucedidos para um único fim: comer até morrer.
Os quatro amigos são divinamente representados por Marcello Mastroianni (Oito e Meio), Philippe Noiret (Cinema Paradiso), Michel Piccoli (A Bela da Tarde) e Ugo Tognazzi, que desconheço a filmografia e que é responsável por boas cenas, inclusive a que imita Marlon Brando em O Poderoso Chefão.
Achei interessante o crescimento da trama, mesmo com toda a gulodice. Além de muita comida e bebida, o roteiro ganha novos contornos quando os amigos contratam prostitutas e convidam uma professora comilona (que se torna aliada e parceira sexual do grupo). E não para por aí. A degradação dos convivas começa com a suruba e os gases de Michel, até a presença de cachorros, que até então não se ouvia sequer latidos e me deixou na dúvida se rodeiam a casa pelo cheiro dos defuntos ou pela comida. O filme, além de ser uma crítica direta à burguesia, retrata também a decadência humana de forma gradual.
Fica a impressão de que se essa farra toda fosse representada por atores desconhecidos, a polêmica seria ainda maior, ou talvez o filme não seria tão atingindo pela crítica, como foi na época.
Eu recomendo tomar um antiácido, ou de preferência assistir ao filme antes de qualquer refeição. É comida demais pra um estômago suportar.





